Ao longo da gravidez, o corpo passa por uma sequência intensa de ajustes hormonais, e a pele costuma ser um dos primeiros lugares onde essas mudanças aparecem. Isso acontece porque a pele é extremamente sensível às variações de estrogênio e progesterona — os dois hormônios que assumem papel central na gestação.
Em entrevista ao portal Terra, a dermatologista Dra. Glauce Eiko, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, comentou justamente esse ponto: a gestação é um período de intensa estimulação da pele, e entender o que é esperado em cada fase ajuda a diferenciar alterações fisiológicas — que tendem a regredir naturalmente — de sinais que merecem avaliação dermatológica mais próxima.
Por que a pele muda tanto durante a gravidez
O aumento da atividade das glândulas da pele, combinado às altas concentrações hormonais, provoca uma cascata de efeitos: mais pigmentação em determinadas áreas, maior oleosidade, alterações na circulação superficial e mudanças na elasticidade dos tecidos. Cada uma dessas respostas tende a se manifestar com mais intensidade em um momento diferente da gestação.
Primeiro trimestre: quando a pigmentação se destaca
Nas primeiras semanas, a alteração mais comum é o escurecimento de determinadas regiões do corpo — vulva, região íntima, aréolas, axilas, parte interna das coxas e a linha que corta o abdômen, que passa a ficar mais visível e escura. Sardas, pintas e cicatrizes recentes também tendem a escurecer nesse período.
Esse processo acontece porque a gestação estimula fortemente as células responsáveis pela produção de melanina, e essa estimulação não ocorre de forma uniforme pelo corpo — por isso algumas áreas escurecem mais que outras.
Também é nessa fase que pode surgir o melasma, manchas acastanhadas que aparecem sobretudo na região das bochechas. A Dra. Glauce Eiko reforça que esse é um dos pontos que exigem cuidado redobrado: como a gestação intensifica a estimulação das células produtoras de melanina, mesmo pequenas exposições solares podem agravar as manchas. Por isso, o uso diário de protetor solar com proteção contra os dois tipos de radiação ultravioleta (UVA e UVB), reaplicado ao longo do dia, é uma das medidas mais eficazes para reduzir o risco de manchas mais persistentes depois do parto.
Ainda no primeiro trimestre, muitas gestantes notam os fios de cabelo mais numerosos e com aspecto mais forte. Isso acontece porque os hormônios da gravidez prolongam a fase de crescimento do fio, adiando a queda natural que ocorreria fora da gestação — um efeito que costuma se reverter nos meses seguintes ao parto.
Segundo trimestre: vasinhos e alterações na circulação
Com o avanço da gestação, os níveis de estrogênio seguem subindo, e isso se reflete na circulação superficial da pele. É comum notar pequenos vasos sanguíneos avermelhados — as chamadas telangiectasias, ou vasinhos — especialmente no rosto, pescoço, colo e braços.
Na maioria dos casos, essas alterações são benignas e tendem a diminuir de forma espontânea após o parto. A dermatologista destaca, porém, que o acompanhamento profissional ajuda a diferenciar o que é apenas fisiológico do que pode exigir tratamento específico, especialmente quando os vasinhos aparecem em grande quantidade.
Terceiro trimestre: o desafio da elasticidade
Na reta final da gestação, o crescimento do abdômen testa os limites da elasticidade da pele, e é nesse período que surgem as estrias com mais frequência. Estima-se que cerca de metade das gestantes desenvolva algum grau de estrias, principalmente no abdômen e nas mamas — inicialmente mais avermelhadas, tornando-se esbranquiçadas com o tempo, fase em que ficam mais resistentes a tratamento.
As estrias aparecem quando as fibras de colágeno e elastina da pele se rompem, um processo influenciado por hormônios da placenta, mas também por fatores individuais, como predisposição genética e características étnicas. Segundo a Dra. Glauce Eiko, não existe produto capaz de evitar completamente as estrias quando há predisposição genética forte — mas manter a pele bem hidratada ao longo de toda a gestação ajuda a preservar sua elasticidade e pode reduzir a intensidade das marcas.
Cuidados que ajudam em qualquer fase da gestação
- usar protetor solar diariamente, mesmo em dias nublados, para reduzir o risco de manchas;
- manter a pele hidratada com produtos adequados para gestantes;
- evitar exposição solar prolongada, especialmente no rosto;
- observar mudanças na cor, textura ou sensibilidade da pele e relatar ao médico responsável pelo pré-natal.
Mitos comuns sobre pele na gravidez
"Estrias sempre podem ser evitadas com o creme certo."
A hidratação ajuda a preservar a elasticidade da pele, mas quando há forte predisposição genética, nenhum produto impede totalmente o surgimento das estrias.
"Manchas na gravidez sempre desaparecem sozinhas."
Parte delas regride naturalmente após o parto, mas isso depende da exposição solar durante a gestação — por isso o uso de protetor solar é tão importante.
"Vasinhos na pele são sempre sinal de problema circulatório grave."
Na maioria dos casos, são alterações benignas ligadas aos hormônios da gestação, mas quadros muito intensos merecem avaliação para descartar outras causas.
Quando procurar avaliação dermatológica
Vale buscar um dermatologista quando surgem manchas muito extensas ou de rápida progressão, vasinhos numerosos associados a outros sintomas, coceira intensa, ou qualquer alteração da pele que gere dúvida sobre se é apenas uma resposta hormonal esperada da gestação.
Conclusão
A pele funciona como um verdadeiro registro das transformações do corpo durante a gravidez. Conhecer esse percurso ajuda a gestante a lidar com mais tranquilidade com o que está vendo no espelho, e o acompanhamento médico continua sendo o caminho mais seguro para orientar cuidados e tratamentos quando necessário.
